PN Chapada dos Veadeiros e meu primeiro trabalho voluntário

Já havia algum tempo que eu queria fazer trabalho voluntário na área de meio ambiente. Pesquisei no site da ICMBio e vi que algumas unidades de conservação ofereciam esse tipo de trabalho. Na época eu estava trabalhando e a princípio pensei no Parque Nacional da Tijuca e no da Serra dos Órgãos, por serem mais perto, porém esses eu já conhecia. O tempo passou, saí do trabalho, mas ideia continuou na minha cabeça. Foi aí que comecei a pensar que queria em algum lugar de uma das regiões que eu não conhecia: Centro-Oeste ou Norte. Depois de muita pesquisa, optei pelo Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Curti a página deles no face e vi que havia um grupo específico para voluntariado. Nesse grupo haviam chamadas, geralmente para feriados, foi quando me candidatei. E-mail enviado, candidatura aceita. Fui selecionada para o feriado de Corpus Christi. Para o voluntariado é oferecido alojamento, transporte nos dias de trabalho e uniforme. Passagens e comida são por conta do voluntário. Tinha pouco mais de um mês pra me preparar, inclusive as passagens aéreas estavam bem baratas. Porém tive Chikungunya no dia seguinte ao que recebi a confirmação e quase desisti. Só tive liberação do médico pra tomar a vacina da febre amarela, faltando exatamente 10 dias antes da viagem. E foi aí que comecei a correr com os preparativos. As passagens aéreas já estavam praticamente o dobro do preço, mas eu não quis desistir. E foi a melhor coisa que eu fiz!

O parque fica na Vila de São Jorge, no município de Alto Paraíso de Goiás, em Goiás. O ponto mais fácil pra chegar até lá é a partir de Brasília. São cerca de 270km a partir do aeroporto de BSB. Pra quem vai sem carro, tem ônibus direto de Brasília para Alto Paraíso, custa cerca de R$45,00. Não existe ônibus que faz de trecho Alto Paraíso até a Vila de São Jorge, que é onde fica a entrada do parque. As opções são: táxi ou pegar carona, o que é muito comum na região. No Facebook  existe o grupo  CONEXAO CHAPADA-BSB – Transporte Solidario, onde a galera oferece e procura carona.

A princípio eu iria de ônibus e em Alto tentaria uma carona, mas como a galera já tava se organizando pelo Whatsapp (tínhamos um grupo dos voluntários do período), acabei combinando de ir com uma das meninas (Thalyta <3) que mora em Brasília.  Melhor pedir carona acompanhado do que sozinha, por via das dúvidas! No final, ela decidiu ir de carro e mais duas meninas que estavam vindo de SP (Fernanda) e RJ (Rebeca) também completariam a super carona!

Partimos num domingo à tarde rumo ao alojamento da ICMBio, que não fica dentro do parque. Na verdade ele fica num ponto no meio do nada, na GO-239, difícil de ser localizado pra quem chega à noite. Exatamente como havia avisado o Luís Henrique, que seria nosso supervisor. Chegamos à noite e realmente tivemos dificuldade pra achar. Mas no final deu tudo certo e já no primeiro dia pude constatar como é lindo o pôr-do-sol da Chapada.

O alojamento em que ficamos foi o Suçuarana, existem mais dois se não me engano. Era bem estruturado e espaçoso, ficamos em 11 pessoas no total. O contato com a natureza é uma das vantagens, enquanto estive lá presenciei apenas as gralhas, que ficavam de olho nos restos de nosso café da manhã e sapo minúsculo que uma das meninas (Maris) encontro nos arredores à noite. Mas segundo relatos do pessoal do parque, costuma aparecer cobra e até uma raposa.

Nossa estadia foi de uma semana e os dois primeiros dias (segunda e terça), foram dedicados a conhecer o parque e suas trilhas. Gosto muito de trilhas, mas estava há um tempo sem fazer e um pouco sedentária. Confesso que as distâncias delas me intimidaram um pouco: Cânions (11km ida e volta) e Saltos (10km ida e volta).  Porém, missão dada é missão cumprida 😀

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Nossa casinha temporária! Saindo pra trilha

Trilha dos Cânions/Cariocas  (11km)

Começamos a trilha por volta de 11h. É uma trilha bem aberta, totalmente diferente do que estou acostumada aqui no Rio. Então é sol na lata o tempo todo, castigando mesmo. Por isso a recomendação de levar no mínimo 1L de água e comida. No caminho entre verdes e marrons da paisagem, algumas flores quebravam essa monotonia. Foi a primeira vez que avistei o chuveirinho,  uma flor linda característica do cerrado. Ela é bem mais alta do que imaginei, algumas até mais altas que eu. Chegando em uma bifurcação há a opção de ir para a Cariocas ou Canion II primeiro. Optamos por Cariocas e  caminhamos cerca de 1Km até chegar a descida entre pedras, que dava acesso à cachoeira. É um lugar lindo. De cima já dá pra ter a noção, com a vista para o rio Preto correndo lá embaixo. Mas a surpresa maior fica quando chegamos de fato na cachoeira! Suas quedas formam um lago, perfeito para quem gosta de nadar.  Mas para quem não curte nadar, logo na descida para esse lago, tem uma pedra que forma uma espécie de deck molhado, bem raso.  Geralmente sou medrosa em cachoeiras, curto mais o visual mesmo. Mas dessa vez não resisti e com a ajuda do pessoal, nadei até as quedas. Meu fôlego não é lá essas coisas. Fiquei bem cansada, pela falta de costume, o que impactou no meu cansaço na volta da trilha. Mas valeu a pena! Foi maravilhosa aquela ducha debaixo da cachoeira. E como o parque não abre às segundas, só havíamos nós e a natureza!

Após aproveitarmos bem a Cariocas, fomos em direção à Cânion II. Chegando lá se tem uma vista incrível de cima das pedras. Dois paredões rochosos por onde passa o rio Preto com uma queda, formam o cânion. Mais a frente, já descendo, tem um poço para banho. Mas já estávamos tão cansados, que só ficamos sentados nas pedras, embaixo das árvores, recuperando o fôlego pra volta.

A volta foi bem cansativa, tive que racionar água, por isso a importância de levar bastante pra trilha. Não lembro quanto tempo levamos, mas chegamos à portaria já no finalzinho da tarde.  Foi cansativo, mas valeu à pena.

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Vista para as Cariocas
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“Cachu” delícia
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Carioca nas Cariocas XD
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Cânion II

Trilha dos Saltos/Corredeiras (10,5km)

Pensei que estaria acabada no segundo dia e com mtas dores, devido  aos requícios da Chikungunya, porém acordei super bem! Na minha opinião, essa trilha é bem menos cansativa. O início da trilha é o mesmo da dos Cânions/Cariocas, porém logo as trilhas de separam numa bifurcação. O caminho tem poucos desníveis até chegar no acesso aos Saltos, onde a descida é bem íngreme. A primeira parada foi no mirante para o salto 120m e todo o vale do Rio Preto. É uma vista incrível. Infelizmente essa cachoeira não tem acesso para banho, é só contemplação mesmo, mas vale à pena! Seguindo a trilha, um pouco mais a frente chegamos ao Salto 80m, que forma um lago ótimo para banho. Dessa vez não estávamos sós, já havia bastante gente aproveitando por lá. Paramos debaixo das árvores, nas pedras. Ao contrário das Cariocas, que não tem nenhum lugar com sombra pra ficar, Salto 80m, tem bastante árvore e dá até pra tirar um cochilo. Assim que você entra na água, é recebido por peixinhos, mtos peixinhos. Eles ficam o tempo todo em volta das pessoas, “mordendo” inclusive, o que pode causar incômodo em algumas pessoas. Eles nem ligaram pra mim hehe.  Nesse ponto, o rio Preto forma uma espécie de praia, ótima para banho. A partir de um certo ponto, cordas limitam a passagem dos banhistas, por questões de segurança não é permitido ir até a queda. Mas mesmo assim, dá pra tirar lindas fotos com a cachoeira ao fundo.  Retomamos o caminho e fomos em direção à última parada, as Corredeiras. Os 230m finais da trilha são suspensos, em madeira, totalmente acessíveis para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida. Pode-se chegar até esse ponto, em veículos próprios desde que sejam 4×4, limite de 4 veículos. No final dessa trilha existe um mirante, com uma vista para as Corredeiras. É uma área totalmente aberta, com poucas sombras e com pequenas quedas dáguas, que fazem uma espécie de hidromassagem. Ficamos ali o resto da tarde, relaxando antes de pegar o caminho de volta.

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Salto 120m
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Salto 80m
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Rodeada por peixinhos lindos <3
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Trilha acessível para as Corredeiras
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Hidromassagem nas Corredeiras

 

Depois da diversão, o trabalho

Na quarta-feira à tarde tivemos uma palestra no Centro de Visitantes do Parque falando sobre a estrutura do ICMBio, a região do parque, as atrações e instruções sobre nosso trabalho nos 4 dias seguintes. Nossas funções foram basicamente atendimento ao público durante o dia e monitoramente de trilhas na parte da tarde. Quando o visitante chega ao parque, precisa assistir um filme sobre as atrações e normas do parque, após isso um dos voluntários  reforça as regras e proibições, como fumar, consumir bebida alcoólica, jogar lixo… Depois o visitante precisa preencher uma ficha com seus dados e contato para caso de emergência. Assinalar quais atrações irá visitar e assinar um termo de responsabilidade no qual ele tem ciência das regras e que o desacato é passível de retirada do parque e multa. Depois ele entrega esse papel para os vigilantes e segue feliz para seu passeio hehe Mas antes de sair, ele ainda tem a opção de ter mais informações sobre as atrações do parque. Foi a parte em que eu trabalhei quase todos os dias, e gostei muito! São banners com informações de cada trilha, com distância e níveis de dificuldade. Além das duas trilhas principais que fizemos, o parque conta com mais duas: Siriema e Travessia 7 quedas.

A Siriema é uma trilha nível fácil, de 800m, porém no período de estiagem, o rio seca nessa parte, logo, não é mto interessante. Porém no verão é mto procurada por famílias com crianças, por conta do fácil acesso. Já a Sete Quedas, é uma travessia com pernoite, de 23km. Precisa ser agendada previamente pelo site Ecobooking. Na época em que estava lá não estava aberta ainda, estavam preparando a trilha para abrir em algumas semanas.

Em um dos dias, fiquei no CAT – Centro de Apoio ao Turista, na Vila de São Jorge, atendendo aos turistas que queriam informações sobre as atrações na região.

No domingo, era o último dia, trabalhamos apenas na parte da manhã. Hora de voltar pra casa. Na verdade eu ainda ficaria mais dois dias em Brasília, mas isso é outra história. Foi triste a despedida, pois foi uma experiência maravilhosa, intensa e completamente diferente do que eu já vivi. Mudou muita coisa na minha vida! Uma das amigas voluntárias, a Letícia, disse uma frase, que não saiu da minha cabeça: A chapada fala com vc! E realmente é verdade. Essa experiência só confirmou e decidiu os novos rumos da minha vida!

Saldo da viagem: uma experiência incrível, novas ideias e novos amigos!

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Voluntários Corpus Christi 2016
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Pôr-do-sol da Chapada
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